Excesso de responsabilidade: como redistribuir o peso da vida
Carregar responsabilidade demais não é virtude. É sintoma. Sintoma de que alguém, em algum momento, te convenceu de que as coisas só funcionam se você segurar tudo sozinho. A vida adulta vira um inventário interminável de tarefas, obrigações emocionais, expectativas familiares, pressões profissionais e pequenos incêndios diários. O corpo aguenta até onde pode. Depois começa a falhar. A mente, então, tenta compensar e falha junto.
A filosofia moral já desconfiava desse enredo. Kant falava da tendência humana de assumir deveres até quando não existem deveres reais. Não por ética, mas por culpa. A pessoa acredita que precisa estar à altura de algum ideal invisível. Já na psicanálise, Ferenczi advertia sobre o “adulto precoce”: aquele que aprendeu muito cedo a cuidar dos outros e nunca conseguiu desaprender. Cresceu acreditando que, se não carregasse o mundo nas costas, tudo desmoronaria.
O excesso de responsabilidade funciona como prisão dourada. Por fora, parece competência. Por dentro, é esgotamento. Quem carrega demais não vive, administra. Não sente, gerencia. Não respira, monitora. E o mais perverso é que esse tipo de sujeito raramente pede ajuda. Winnicott diria que isso acontece porque ele nunca experimentou o que é ser cuidado sem se sentir em dívida. Para esses adultos, pedir ajuda soa como falha moral.
Redistribuir o peso começa com um gesto interno: admitir que é impossível sustentar tudo. A dificuldade não é lógica, é emocional. O sujeito hiperrresponsável acredita que, se soltar uma ponta, todo o tecido rasga. Mas a verdade é outra: segurar tudo é que rasga. Raramente a vida depende de um único corpo, de uma única decisão, de uma única vigilância. A ideia de indispensabilidade é fantasia narcisista, não realidade objetiva.
É aqui que entra a sociologia de Durkheim. Ele lembraria que a vida social é, por definição, distribuição de funções. Quando uma pessoa assume o que é de todos, o sistema adoece junto. O excesso de responsabilidade individual não é só problema psíquico. É falha estrutural. É sinal de que o sujeito internalizou funções que deveriam ser compartilhadas: afetos, tarefas domésticas, cargas familiares, demandas profissionais.
O próximo passo é mais difícil: suportar a culpa. Toda redução de responsabilidade ativa uma culpa difusa. Culpa por descansar, por dizer não, por não resolver o problema de alguém, por deixar que outra pessoa se vire sozinha. Freud já escrevia que o superego é uma máquina de punição. Ele cobra perfeição onde nem deveria haver cobrança. E aqui é preciso método: perceber que a culpa não é sinal de erro, é sinal de mudança.
Redistribuir o peso também significa aceitar a imperfeição do outro. Um dos motivos pelos quais os hiperrresponsáveis sobrecarregam-se é a fantasia de que ninguém fará tão bem quanto eles. Isso não é cuidado. É controle. É infantilização do outro. Lacan diria que, nesse movimento, o sujeito se coloca como o único suporte imaginário, condenando todos ao papel de dependentes eternos. É preciso tolerar que os outros façam do próprio jeito, com os próprios limites, no próprio tempo. A responsabilidade coletiva nasce do reconhecimento da diferença, não da centralização.
Há ainda uma dimensão prática. É preciso mapear o que não é seu. Tarefas emocionais que você assumiu por costume. Demandas familiares que pertencem a outros adultos. Pressões profissionais que você abraçou como se fossem missão existencial. Redistribuir exige dizer não, delegar, dividir, negociar. Exige assumir a vulnerabilidade de precisar do outro. Exige perder um pouco da imagem polida de infalibilidade.




